Editorial: Soluções baseadas na natureza: por que precisamos reinventar o que sempre esteve diante de nós?

Quando ouvi pela primeira vez a expressão “Soluções Baseadas na Natureza”, confesso que fiquei curioso. O nome sugeria algo novo, talvez uma fronteira recente da ciência ambiental: tecnologias inspiradas em processos naturais, estratégias inovadoras ou alguma nova maneira de enfrentar os grandes problemas ambientais do nosso tempo.

Quando comecei a entender melhor o conceito, porém, minha reação foi diferente: “Mas a natureza já não fazia tudo isso?

A pergunta pode parecer provocativa, e talvez seja. Mas ela não pretende diminuir a importância das Soluções Baseadas na Natureza. Pelo contrário. Talvez ajude a explicar por que esse conceito se tornou tão necessário.

Durante muito tempo aprendemos a pensar o desenvolvimento como a substituição da natureza por infraestrutura, tecnologia e produção. Derrubamos florestas para produzir, canalizamos rios para controlar a água, drenamos áreas úmidas, simplificamos paisagens agrícolas e, quando os problemas decorrentes dessas transformações surgiram, começamos a buscar tecnologias capazes de resolvê-los.

Então redescobrimos algo bastante elementar: ecossistemas funcionais já realizavam muitos desses trabalhos.

Quer aumentar ou tornar mais resiliente a produção agrícola? Conserve vegetação nativa próxima às áreas produtivas e favoreça polinizadores.

Quer contribuir para a proteção das nascentes, reduzir erosão e melhorar a regulação hídrica de uma propriedade? Proteja e restaure a vegetação nativa.

Quer reduzir determinados problemas com pragas agrícolas? Paisagens mais diversas podem favorecer inimigos naturais e contribuir para o controle biológico.

Quer recuperar biodiversidade? Reconstrua habitat, conecte remanescentes e permita que processos de dispersão, colonização e sucessão voltem a acontecer.

Quer retirar carbono da atmosfera? Podemos desenvolver tecnologias extremamente sofisticadas para capturá-lo, e devemos continuar pesquisando-as. Mas também conhecemos há muito tempo organismos extraordinariamente eficientes em capturar CO₂ usando energia solar: as plantas.

É claro que nenhuma dessas relações é tão simples quanto cabe em uma frase. Plantar árvores não resolve qualquer problema ambiental; uma floresta não substitui toda infraestrutura; restauração ecológica mal planejada também pode fracassar; e desafios globais como mudanças climáticas exigem profundas transformações nos sistemas energéticos, produtivos e de consumo. Soluções Baseadas na Natureza não são uma resposta mágica.

Mas talvez exista algo de profundamente revelador no fato de precisarmos chamá-las de “soluções”.

Aquilo que durante décadas foi tratado como obstáculo ao desenvolvimento reaparece agora como infraestrutura essencial para sustentá-lo.

Florestas deixam de ser apenas áreas que “não estão produzindo” e passam a ser reconhecidas pela regulação climática, armazenamento de carbono, conservação do solo, proteção da biodiversidade e participação no ciclo hidrológico. Áreas úmidas deixam de ser terrenos a serem drenados e passam a ser consideradas estruturas naturais de retenção e regulação da água. Vegetação nativa em paisagens agrícolas deixa de representar simplesmente uma redução da área cultivada e passa a integrar estratégias de polinização, controle biológico, conectividade ecológica e resiliência da própria produção.

Talvez, portanto, a maior inovação das Soluções Baseadas na Natureza não esteja na natureza.

Esteja em nós.

Na nossa capacidade, ainda recente e incompleta, de reconhecer economicamente, cientificamente e politicamente funções ecológicas que sempre estiveram presentes.

E isso produz uma contradição interessante. De um lado, considero excelente a popularização do termo. “Soluções Baseadas na Natureza” é uma expressão poderosa. Aproxima conservação de palavras normalmente associadas ao desenvolvimento: solução, inovação, eficiência, investimento. Ela ajuda a retirar a conservação do lugar equivocado de simples antagonista da produção e colocá-la onde deveria estar: entre os componentes necessários para sociedades produtivas, resilientes e sustentáveis.

Por outro lado, há algo desconfortável no fato de precisarmos constantemente renomear e reembalar o valor da natureza para conseguirmos defendê-la.

Serviços ecossistêmicos. Capital natural. Infraestrutura verde. Soluções Baseadas na Natureza. Novos conceitos surgem, ganham espaço em artigos científicos, congressos, políticas públicas e mecanismos financeiros. Eles são úteis e frequentemente representam avanços conceituais reais. Mas, por trás de boa parte desse vocabulário, permanece uma constatação antiga: sociedades humanas dependem de ecossistemas funcionais.

Isso também muda a maneira como devemos discutir produção agrícola e conservação.

O debate não pode continuar restrito à falsa escolha entre “produzir” ou “preservar”. O desafio contemporâneo é produzir melhor nas áreas destinadas à produção, recuperar áreas degradadas e subutilizadas, conservar ecossistemas naturais e utilizar ciência e tecnologia para aumentar a eficiência sem destruir justamente os processos ecológicos dos quais a própria produção depende.

Não precisamos abandonar tecnologia para escolher a natureza. Precisamos abandonar a ideia de que uma necessariamente substitui a outra.

A ciência pode ajudar a identificar onde restaurar, quais espécies utilizar, como estruturar paisagens, como aumentar a conectividade, quanto carbono pode ser recuperado, quais intervenções melhoram a segurança hídrica e como conciliar conservação e produção. Nesse sentido, a verdadeira inovação talvez esteja justamente em combinar conhecimento ecológico, tecnologia e planejamento para voltar a trabalhar com os processos naturais, em vez de continuamente tentar substituí-los.

Sou, portanto, um entusiasta das Soluções Baseadas na Natureza. Gosto do conceito e, admito, até do nome. Se precisávamos de uma expressão moderna e atraente para lembrar governos, empresas e a própria sociedade de que conservar e restaurar ecossistemas também é investir em infraestrutura, segurança, produção e qualidade de vida, que assim seja.

O que me incomoda é outra coisa.

É perceber que chegamos a um ponto em que precisamos apresentar como inovação a decisão de deixar a natureza fazer aquilo que ela faz há milhões de anos.

Talvez a solução mais sofisticada nem sempre seja inventar uma nova maneira de fazer.

Às vezes, é finalmente entender o valor daquilo que já funcionava antes de decidirmos substituí-lo.

Alex Coelho

Diretor Financeiro ProBiodiversa Brasil