Editorial: “Entre ciência e território: por que conservar a biodiversidade também exige ouvir as comunidades?”

É possível conservar a biodiversidade de um território sem conhecer as pessoas que vivem nele?

A pergunta nos leva a refletir sobre como planejamos e executamos iniciativas de conservação. Estamos acostumados a pensar nesses projetos a partir de diagnósticos ambientais, levantamentos de espécies, análises técnicas e estratégias de intervenção. Tudo isso é indispensável. Mas conhecer os aspectos ecológicos de uma área é suficiente para compreender o território em toda a sua complexidade?

Ao longo da minha atuação na área ambiental, tenho percebido que conservar a biodiversidade também exige compreender as relações que as pessoas estabelecem com a natureza. Afinal, os territórios não são apenas espaços onde encontramos espécies e ecossistemas. São lugares que guardam histórias, experiências, conhecimentos e modos de vida construídos ao longo de gerações.

Nas comunidades, o conhecimento sobre a natureza se desenvolve por meio da observação cotidiana, do uso das plantas e da convivência com os ciclos naturais. Essas experiências podem revelar aspectos importantes da biodiversidade e das transformações da paisagem, ampliando nossa compreensão sobre os ambientes.

A ciência tem um papel fundamental nesse processo. É por meio da pesquisa que identificamos espécies, investigamos processos ecológicos e desenvolvemos estratégias para conservar e restaurar ecossistemas. Entretanto, reconhecer a importância da ciência não significa desconsiderar outros conhecimentos que também contribuem para compreender os territórios.

Não se trata de substituir métodos científicos por experiências individuais, mas de reconhecer as particularidades de diferentes formas de conhecimento e criar oportunidades para que dialoguem em favor da conservação.

O problema começa quando planejamos ações para um território sem considerar suficientemente as pessoas que vivem nele.

Um diagnóstico ambiental pode indicar quais áreas precisam ser restauradas, quais espécies devem ser utilizadas e quais intervenções são necessárias. Mas o conhecimento técnico, isoladamente, não revela toda a história de uma área, as relações que a comunidade mantém com ela ou as condições que podem favorecer a continuidade das ações.

É nesse contexto que a escuta se torna tão importante. Ouvir as comunidades vai além de realizar entrevistas ou convidar moradores para atividades pontuais. Significa conhecer suas perspectivas, compreender suas demandas e criar espaço para que participem dos processos que envolvem seus territórios.

Essa compreensão está presente no meu trabalho na ProBiodiversa Brasil e atravessa os diferentes projetos que desenvolvo pela instituição. No ConectBio – Conexão Comunidade e Biodiversidade, por exemplo, os levantamentos científicos foram associados à investigação dos conhecimentos etnobotânicos de comunidades da Serra do Gandarela, em Minas Gerais. A iniciativa permitiu documentar espécies utilizadas pelos moradores e valorizar os saberes relacionados à biodiversidade local.

Nos projetos Nascentes do Amanhã e Veredas Vivas, o diálogo com proprietários, escolas e atores locais também integra o planejamento das ações de restauração ecológica e educação ambiental. Embora tenham objetivos distintos, essas experiências reforçam a importância de conhecer as particularidades de cada área e considerar as pessoas envolvidas na construção das iniciativas.

Cada território apresenta características ambientais, sociais e culturais próprias, que precisam ser consideradas na definição das estratégias de atuação. Por isso, ouvir não deve ser uma formalidade para cumprir etapas de um cronograma, mas uma oportunidade de compreender melhor o contexto em que o trabalho será realizado.

É claro que o diálogo, por si só, não garante o sucesso de uma iniciativa. A conservação exige planejamento, recursos, conhecimento técnico, acompanhamento e avaliação dos resultados. Mas também exige reconhecer que a continuidade das ações depende, em diferentes graus, das relações construídas com as pessoas e das condições existentes em cada território.

Diante dos desafios atuais da conservação, precisamos continuar investindo em ciência, tecnologia e estratégias eficazes de proteção e restauração dos ecossistemas. Ao mesmo tempo, precisamos ampliar nossa compreensão sobre o que significa conservar. Não basta olhar para as espécies que queremos proteger ou para as áreas que precisamos recuperar. É necessário considerar também as relações humanas que fazem parte desses lugares.

Acredito que conservar a biodiversidade também significa compreender os territórios para além de seus limites geográficos e de suas características ambientais. Significa reconhecer as pessoas como parte dessa realidade e valorizar suas experiências e seus conhecimentos na construção de caminhos para a conservação.

Talvez a pergunta inicial não tenha uma resposta única. Mas ela nos lembra de algo essencial: antes de definir o que precisa ser feito em um território, precisamos compreender não apenas sua natureza, mas também as pessoas que fazem parte de sua história.

Fábia Souza

Gerente de Projetos — ProBiodiversa Brasil